domingo, 1 de agosto de 2010

Pep está lenta. Decidiu fazer tudo vagarosamente hoje, com o mesmo cuidado e foco como se enfia uma linha no buraco de uma agulha fina. Resolveu também simplificar a mente, também com o mesmo cuidado e atenção, para não desviar do que está fazendo, mesmo que o que faça seja somente encher o filtro de água. É, daqui a pouco terá água potável para beber e como Pep quer um copo d'água, fresca e recém-filtrada! Não, não necessariamente recém-filtrada, mas já que está esperando por essa, que de gota em gota vai saindo pelo filtro e que só mesmo com um certo tempo se terá o suficiente para se encher um copo e assim ela se satisfará com um bom gole d'água.

Sua boca está seca, mas não se desesperará com isso também. Ficará aguardando pela água o tempo necessário.

Não quer agora se preocupar com as coisas todas da vida adulta; as responsabilidades, os compromissos, as contas pra pagar, como arrumar um trabalho e o que fazer. Não. Pep agora quer esperar e fazer o que pode sem pressa e sem ânsia, sem tropeçar.

Pep é uma moça, uma mulher que está caminhando para os seus 30 anos. Uma moça e também uma mulher que fará o ano que vem trinta anos - Trinta anos! Não consegue ainda perceber a idade avançada, embora ainda jovem que é. Ela se considera talvez mais jovem do que seja e às vezes mais velha do que é realmente. É provável que seja mesmo da idade. Os trinta anos chegando, não estará mais na casa dos 20... e aos que sabem que ela está prestes a completar trinta exigirão dela uma postura de mulher adulta, que deve realizar e agir - pagar contas e prestar contas à sociedade, aos que com que ela se relaciona e a julgam. "Tudo uma grande bobagem!" - é como intimamente gosta de pensar para se defender (pode ser) das responsabilidades dessa nova fase da vida. "Uma mulher! E ser independente agora! O que isso significa? Por que tenho que ser aquilo que esperam de mim? E será que eu também espero isso? Será que é assim que eu quero ser definida? Será que pra eu ser respeitada e pertencer à sociedade é assim que tenho fazer, com todo esse peso? Mas, como se faz isso?!" - Pep está mesmo precisando fazer as coisas mais devagar agora e ela está agindo assim, tentando equilibrar a força do tempo contra ela. Como sente que está sendo desse jeito, tudo muito rápido, muita demanda e muito trabalho, muita disponibilidade, muitas tarefas, muito trabalho, dinheiro, contas, compromissos, relacionamentos, muito trabalho, terapia, casa, faxina, águar as plantas, alimentar o peixe, lavar a roupa, muito trabalho, mandar emails, ir à audiências, médicos, exames, ser filha, irmã, neta, namorada, amiga, parceira, companheira e além de tudo isso, criar! Ufa! Dá muito, mas muito trabalho! Eu me cansei só de listar tudo isso. E ela que pensava que a vida seria mais fácil do que era antes, que antes era mais difícil. Talvez até fosse, porque estava sem rumo, sem agenda, agora ela tem que cumprir, tem coisas a fazer, tem trabalhos a realizar, mesmo estando desempregada, aliás como ficar desempregada dá trabalho!

"Mas chega! É muito pra mim de uma veizada só, assim sem trégua, sem eu sentir que esteja preprada!".

Realmente tudo se deu muito rápido na vida de Pep de um tempo pra cá. Ela de repente se viu sozinha (explicarei como tudo aconteceu numa outra vez, ou talvez não explicarei nada também) numa cidade grande, onde ela sempre fantasiou estar e que tinha medo de não conseguir nem mesmo a coragem para vir e se estabelecer nessa cidade do Rio de Janeiro. Pensou também em São Paulo, mas era tão distante essa hipótese que só mesmo num ato de muita loucura ela pegaria as coisas dela ou mesmo nada e partiria pra lá sem ter nem mesmo onde ficar; e também porque em São Paulo não tem praia, nem paisagem, nem tantos sonhos ou a terra de lá não é boa para alimentá-los, enfim, não vingariam e não era mesmo lá, afinal está aqui agora, já há quase 3 anos.

Pois então, ela agora foi até o filtro pra verificar se já pode encher pelo menos um quarto de copo com água, senão tomaria mesmo uma coca zero. Agora a sede apertou.

Um pouco d'água e 3 cubos de gelo. Tomar um pequeno gole, como costuma fazer, aquecer a água gelada na boca um pouco antes de engolir.

Um dia morno, quase quente e uma vontade de criar, criar, criar, sem que isso signifique o compromisso e venha com o peso de um trabalho!